Treinamento de força para crianças

Por Paulo Roberto Carvalhosa Da Silva  CREF: 024192 G/RJ

Esse trabalho tem como objetivo discutir “os mitos e as verdades” sobre o treinamento de força para crianças.

Quando se fala de criança temos que pensar sobre o crescimento longitudinal que acontece durante a puberdade que engloba três distintos fenômenos, que se revelam sequencialmente.

O Primeiro dele é o estirão do crescimento com duração aproximada de dois a três anos, caracterizado por velocidade de crescimento reduzida durante a fase pré-puberal, crescimento (PHV), e uma fase de cessação do crescimento, os quais contribuem com mais de 20% na estatura final adulta; o segundo fator é a rápida aquisição de conteúdo mineral ósseo, reconhecida como pico de massa óssea e que se apresenta como um incremento linear durante a infância e exponencial na segunda década de vida, com maior intensidade entre 13 e 17 anos, sendo assinalados como anos críticos para o evento, aqueles compreendidos entre 14 e 15 anos de idade, e o terceiro fato é o processo de maturação esquelética, que se encerra com o fechamento epifisário.

Há alguns fatores que reforçam esses mitos e verdades sobre o treinamento de força para crianças, são eles:

  • Ganhos de força muscular
  • Hipertrofia muscular
  • Desenvolvimento ósseo
  • Lesões (agudas e cartilagem de crescimento)
  • Problemas lombares

Existem outros fatores que também enchem esse assunto de discussão, como os benefícios psicológicos e aumento da secreção do hormônio GH no treinamento de força para criança.

GANHOS DE FORÇA

Ocorrem ganhos de força muscular em crianças a partir do treinamento de força, comparando-se essas crianças com as que não realizaram esse treinamento. (Faigenbaum, 1993; Kraemer, Fry et al., 1989; Blimkie, 1989, 1993; Sale, 1989).

Aparentemente, uma das melhores explicações na melhoria da força muscular em crianças é devido à adaptação após treinamento com peso (Ramsey et al. 1990).

Pesquisas mais atuais têm sugerido que o pré-adolescente pode obter aumento significativo de sua força muscular, em especial quando normas gerais de treinamento adequado e segurança forem obedecidas.

HIPERTROFIA MUSCULAR

A hipertrofia é mais difícil de se alcançar em crianças, especialmente em pré-púberes, do que em adultos.

O crescimento acentuado do músculo em resposta ao treinamento de força pode começar depois da adolescência, quando os perfis hormonais de homens e mulheres adultos começaram a surgir (kraemer e Fleck, 1993).

Num estudo de Fukunaga, Funato e Ikegawa (1992), onde foi examinado um grupo de 51 estudantes de primeira, terceira e quinta séries realizando um treinamento de força durante 12 semanas, onde esse trabalho consistia em três ações isométricas máximas sustentadas de flexão do cotovelo durante 10 segundos, duas vezes por dia, três dias por semana.

Um grupo controle de 47 estudantes não participou do programa de treinamento. Em métodos de ultrassônicos foram medidas as áreas de seção transversa dos músculos e ossos.

Um aumento significativo nessa área foi observado no grupo treinado logo após o programa de treinamento de força. O grupo controle demonstrou um aumento na área de gordura.

Mesmo que não ocorra hipertrofia, existem outras mudanças no músculo, nervo e tecido conjuntivo que sugerem um aumento na qualidade do tecido muscular e da unidade neuromuscular.

As mudanças nos padrões de recrutamento da proteína muscular (formas miosinas) e no tecido conjuntivo poderiam contribuir para o aperfeiçoamento da força, desempenho esportivo e prevenção de lesão.

Outro estudo também demonstrou significativo aumento da força em crianças pré-adolescentes sem as correspondentes mudanças na circunferência de medidas de dobras cutâneas (OZMUN, MIKESKY & SURBURG, 1991).

DESENVOLVIMENTO ÓSSEO

O desenvolvimento dos ossos das crianças pode ser intensificado com exercícios de forças.

O treinamento de força aumenta a tensão muscular, coeficiente de tensão e compressão, que são importantes para estimular a modelagem do osso. (Conroy et al., 1992).

O aumento da densidade óssea pode ser uma importante adaptação possível em crianças como resposta do treinamento com peso.

LESÕES

O incremento na densidade óssea pode ser um fator responsável para a diminuição da incidência de lesões como observado em atividades que envolveram o treinamento com peso em crianças (HEJNA et al. 1982).

Fraturas na placa epifisária são relatadas em exercícios envolvendo levantamentos sobre a cabeça (por exemplo, meio-desenvolvimento, arremesso) com cargas próximas a 1RM.

Por isso esses exercícios não devem ser feitos e devemos salientar aos jovens na execução dos exercícios de forma correta para evitar lesões.

PROBLEMAS LOMBARES

Durante o estirão de crescimento muitas crianças possuem uma tendência de desenvolver hiperlordose lombar.

Traumas agudos podem causar problemas lombares em adultos assim como em crianças. No treinamento de força, o trauma agudo acontece por causa da execução incorreta dos exercícios, como os exercícios de agachamento que causam estresse na região lombar.

OUTROS BENEFÍCIOS

Outros benefícios do treinamento de força são os efeitos positivos psicológicos que foram demonstrados em alguns estudos (BJORNARAA.1982: BLANSKSBY & GREGOR, 1981: E HEJNA et al., 1982).

Existem estudos que relatam que um treinamento de força ou uma atividade física aumenta da secreção do hormônio GH, por isso vamos dar um pouco mais de atenção sobre esse assunto agora.

O GH tem efeitos biológicos diversos no decorrer da vida, conduzindo ao estimulo do crescimento somático durante a infância e adolescência e contribuindo de forma significativa no fornecimento energético, atuando no metabolismo glicídio, protéico e lipídico, além de agir sobre uma composição corporal saudável na vida adulta.

O IGF-1 é um polipeptídico presente na circulação sanguínea, produzido principalmente no fígado, mediado por receptores hepáticos de GH e em outros tecidos, como o ósseo.

No esqueleto o IGF-1 atua de forma singular em ambos os sexos, sendo o principal mediador da aceleração linear do crescimento, envolvido na determinação da espessura óssea, comprimento, densidade e arquitetura do esqueleto, aumentando as proporções corporais durante a infância e adolescência.

Como foi dito anteriormente o exercício físico pode aumentar a circulação do GH no sangue, porém Guy e Micheli advogam que, durante a puberdade, o exercício físico intenso nem sempre traz benefícios para os adolescentes, particularmente com relação ao crescimento esquelético.

Damsgaard et al relatam que o treinamento de força intenso, em adolescente, parece acarretar um decréscimo nos níveis de IGF-1, sugerindo que esse treinamento pode reduzir o crescimento e comprometer a estatura final, com esse intuito, Damsgaard et al avaliaram o crescimento de crianças e adolescentes em diferentes modalidades esportivas.

Os autores observaram, em estudo realizado com 184 crianças e adolescentes de nove a 13 anos, que vários fatores se destacam na obtenção da estatura de atletas, entre eles, os aspectos genéticos, nutricionais, o nível maturacional e a estatura anterior à prática do esporte, julgando serem esses os mais importantes fatores determinantes.

A MENARCA

Existe um fator no caso do sexo feminino que é a Menarca, a primeira menstruação, onde interfere no tamanho da atleta.

Em estudos foi constatado que as ginastas eram mais altas e mais magras quando confrontadas com suas controles, com menarca tardia e desenvolvimento pubertário atrasado.

Isso não surpreendeu os autores, devido ao fato que uma vez um adolescente for submetido a um regime de alta intensidade de treinamento (média de 29,14 horas/semana) desde a infância e pré-adolescência, sendo motivadas a manter o baixo nível corporal.

O perfil mais alto e o baixo peso corporal parecem ser reforçados em atletas de ginástica rítmica, fazendo parte inclusive do processo de seleção de atletas para o esporte.

Nesse estudo, o atraso no desenvolvimento pubertário, com a observação do PHV ocorrendo em momento mais tardio, não se associou à menor estatura adulta predita, uma vez que se verificou recuperação adequada no potencial de crescimento, em idade posterior, mesmo após as atletas terem sido submetidas ao regime de alta intensidade de treinamento (média de 29,14 horas/semana) desde a infância e pré-adolescência.

Um estudo feito por Klentrou e Pyley que investigou um grupo de atletas canadenses e gregas confrontando com grupo controle, verificou que as canadenses eram mais altas do que seu grupo controle, enquanto as gregas tinham estatura menor que ao do seu grupo controle, essa diferença é devido ao fato da diferença de horas e dias de treinamentos realizados entre os grupos.

Da mesma forma, verificaram que o evento menarca estava atrasado em 32 das 45 ginastas de seu grupo controle, composto por gregas e canadenses, que tinham em média de 14,5 e 14,7 anos respectivamente; quando as separaram em dois grupos, considerando as sem menarca e as com, verificaram que as primeiras tinham maior número de horas e de freqüência de treino por semana, com diferença estatisticamente significante na avaliação da percentagem de gordura corporal e na estatura, sendo constatada altura média de 1,67cm para as com menarca e 1,56cm para as pré-menarca.

Os autores reforçam, com os resultados apresentados, a importância da freqüência e da duração do treino sobre a composição corporal e estatura final.

Para Georgopoulos et al, a intensidade e a duração do treinamento físico são os fatores mais importantes do que o próprio esporte praticado, por isso tem sido sugerido que o máximo de treinamento físico semanal seja de 15 a 18 horas, quando se trabalha com pré-púberes e púberes, para evitar comprometimentos no crescimento.

CONCLUSÃO

Conforme podemos concluir um dos mitos que era muito usado era o que a criança não crescia por causa do treinamento repetitivo.

Porem conforme (AMERICAN ORTHOPAEDIC SOCIETY FOR SPORTS MEDICINE, 1998) não existe tal evidência. Logo esse trabalho deixou claro que um treinamento supervisionado, adequado, produzido por um profissional correto e ético pode trazer um benefício enorme para uma criança.

Só devemos salientar que a intensidade, o volume diário e semanal e o elevado número de repetições e altas sobre – cargas podem ocasionar risco de lesões, principalmente as epifisárias que trazem um problema para a vida toda de uma pessoa.

REFERÊNCIAS

  • Steven Fleck & Aylton José Figueira Junior, Riscos e benefícios do treinamento de força em crianças: Novas tendências.
  • Arli Ramos de Oliveira & Jerf Dee Gallagher, Treinamento de força muscular em crianças: Novas tendências.
  • Carla Cristiane da Silva, Tâmara Beres Lederer Goldberg, Altamir dos Santos & Inara Marques, O exercício físico potencializa ou compromete o crescimento longitudinal de crianças e adolescentes? Mito ou Verdade?
  • Steven J. Fleck & William J. Kraemer, Fundamentos do Treinamento de força muscular.

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One Comment

  1. Prof. Dr Andrei G. Lopes 18 de janeiro de 2018 at 01:31

    Parabéns pelo texto.

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